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Entrevista

Sou a Beatriz Bagulho, ilustradora, animadora, realizadora de cinema de animação, e muito mais. Nasci em Lisboa, estudei em Inglaterra e neste momento vivo em Almada. Gosto de me envolver em projetos artísticos dedicados à infância e à juventude, desde espetáculos, a séries, músicas, exposições, festivais e livros.

Como surgiu o “click” para investir na arte?

Cresci rodeada de artistas, portanto a arte sempre esteve muito presente na minha vida. Desde idas ao teatro, a concertos e exposições, às tardes que passava a ler um livro enquanto a minha mãe ensaiava no seu cravo. No atelier de arquitetura dos meus avós brincava com os modelos de esferovite, imaginava e desenhava histórias. A minha avó conta-me que, ao entrarmos nalgum restaurante, o meu primeiro pedido era sempre que as mesas tivessem toalhas de papel para desenhar e escrever. Estudei no Conservatório de Música durante nove anos, o que também me trouxe desde pequena uma grande aprendizagem acerca do processo de criação, de colaboração, a dedicação e foco necessários para se tornar num bom artista. Foi lá que comecei a desenhar tudo o que via, já perto da adolescência, e desde então nunca mais soube pousar o lápis.

De que forma pode a arte libertar a mente?

Acredito que todos temos em nós uma vontade de criar, de expressar o que sentimos ou que aprendemos de inúmeras formas, um modo de nos abstrairmos de nós mesmos e partilhar com os outros a nossa existência. Talvez para um artista seja mais que uma vontade, seja mesmo uma necessidade assim como respirar. De qualquer modo, a arte pode ser libertadora para o artista enquanto processo meditativo mas também, evidentemente, uma libertação para quem mais tarde usufrui do objeto artístico. Para mim, um desenho ou filme que eu traga ao mundo é sempre um início de uma conversa, uma troca de impressões com quem depois o vê.

Quais as maiores dificuldades enquanto artista?

Uma das maiores dificuldades que tenho vindo a viver é a gestão do tempo e dinheiro, uma questão que diz respeito não apenas aos artistas mas a todos os trabalhadores independentes. Felizmente desde cedo que sou convidada para trabalhar em projetos culturais – como espetáculos, livros, cinema, eventos – o que tem sido bastante enriquecedor e me permite trabalhar enquanto freelancer nas áreas artísticas. No entanto, também existem vários aspetos difíceis neste tipo de trabalho. É habitual dar por mim a gerir cinco ou seis projetos em simultâneo, a fazer entregas “para ontem”, trabalhar 80h+ horas semanais e a ficar tão entusiasmada em querer fazer um bom trabalho que acabo por dedicar muito mais tempo do que devia de acordo com os orçamentos apertados que existem.  No fundo, a precariedade é o dia-a-dia na cultura em Portugal.

Como lidas com bloqueios criativos?

Passeio, pesquiso na internet, vou ver exposições ou filmes que tenham alguma relação com o projeto que estou a fazer, ou trabalho em equipa. Há muito que se ganha ao criar em conjunto, adoro sessões de “brainstorming”. Também gosto de estimular a criatividade mesmo que não me sinta inspirada, e para isso faço exercícios de desenho ou de escrita. Assim consigo estar sempre ativa, sempre atenta,  e ter à minha volta todas as ferramentas que possa precisar para o que vier.

Sentes que a arte te aproxima do teu ser? Se sim, de que forma?

Estamos sempre a crescer,  a mudar, e isso reflete-se tanto na arte que experienciamos como na “arte” que criamos (para aqueles que fazemos coisas). A Arte tem o papel de espelhar o que acontece (nas pessoas, nos pensamentos, na sociedade) e também de dar a conhecer o que vem, de comunicar algo que ainda não percebemos concretamente. Para mim, o percurso que tenho feito nos últimos anos veio a aproximar-me da minha infância, não só por me dedicar aos universos da animação e ilustração, normalmente associados aos públicos infanto-juvenis, mas também porque reaprendi a colocar-me naquele espaço de procura, de libertação e de criatividade em que vejo o mundo como em criança.

Tiveste alguma situação dentro do mundo criativo que te marcou profundamente?

O “Lisboa em Voo de Peixe” foi dos primeiros trabalhos que fiz, um espetáculo de música e desenhos animados que criei em conjunto com a minha mãe (cravista). Foi uma encomenda da Fábrica das Artes/CCB quando ainda estava a estudar no secundário, e revelou-me imenso sobre ilustração, animação, criação de histórias e espetáculos para crianças. Depois da apresentação em Lisboa, fomos com o espetáculo à Bélgica, França e Noruega através do BigBang Festival da Zonzo Compagnie. Nessas viagens pude conhecer os espaços culturais por onde íamos passando, os trabalhadores da cultura, museus, teatros e diferentes públicos. Notei como o papel da Arte e da cultura é tão valorizado e apreciado lá fora – não é que não o seja em Portugal, entre os artistas e amantes de arte, mas senti uma grande diferença no modo como éramos recebidas pelas instituições e pelo público. O nosso pequeno cine-concerto era visto com entusiasmo e atenção por parte de crianças, pais e professores que depois nos vinham fazer perguntas, partilhar ideias, demonstrar o seu afeto e agradecimento. Já tive em Portugal experiências semelhantes, mas não à escala e frequência que senti nesta jornada. 

Trabalhos

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